Eu também vivi 1968

Elza Ramos
Divulgação

Em 1968 eu estudava no Colégio N.Sra. Auxiliadora ou colégio de D. Anfrísia Santiago. Fazia o 2º ano primário, cursava o CHC (Children C- 3º ano) na EBEC – escola de inglês e fazia o 3º ano de acordeon e teoria musical no Instituto de Música da Bahia, ufa! Quanta coisa para uma menina de 08 anos.

Morava na Carlos Gomes, na única residência que restava naquela área central de Salvador. A casa era antiga e bem grande, tomava toda a quadra, era de frente para a Carlos Gomes e as laterais para a Travessa do Mucambinho e a travessa da Pastelaria Good Day, que não sei o nome. Era, portanto, a nossa casa exatamente paralela à Secretaria de Segurança Pública e defronte de dois pontos de concentração de pessoas: A churrascaria Braseiro e o Bar La Fontana. E ficava no alto. Palco perfeito em uns momentos, arquibancada perfeita em outros e esconderijo perfeito em outros tantos. Adiante vocês vão entender o porquê.

O chique nessa época era passear na Rua Chile, a área comercial mais movimentada e onde ficavam as melhores lojas: Sloper. Adamastor, entre tantas outras. Próximo dali estava, no Terreiro de Jesus, a Faculdade de Medicina da UFBª - Universidade Federal da Bahia e, entre a Rua Chile e  a UFBª, a Praça Municipal, com a sede da Prefeitura e a Praça da Sé- terminal rodoviário de onde saíam todas as linhas de ônibus de Salvador e também aonde chegavam todas elas. Era o local ideal para reuniões estudantis. Uma bomba relógio.

Os estudantes secundaristas e os universitários se encontravam na Praça da Sé, aonde uns chegavam de ônibus e outros tantos pelo Plano Inclinado Gonçalves Dias, desciam um pouco e chegavam à Praça Municipal aonde recebiam aqueles vindos da cidade baixa, que chegavam pelo Elevador Lacerda e se concentravam, gritavam palavras de ordem: ”Abaixo a Ditadura”;  “Estudante unido jamais será vencido”; “A UNE não tem preço”!!!!! E daí partiam em passeata: desciam a Rua Chile, passavam pela Praça Castro Alves, Edifício Sulacap, e subiam a Carlos Gomes.

Megafones nas mãos, faixas, cartazes, palavras de ordem e os protestos seguiam. A cada metro o grupo aumentava e se tornava mais inflamado. E o povo nas calçadas abaixava a cabeça e seguia seu caminho sem olhar para os lados. O medo era grande. Comerciantes baixavam as portas. Alguns fugiam correndo. Nós lá em casa tínhamos ordem para fechar as janelas, o portão da escada, a porta e deitarmos todos no chão. Era um barril de pólvora.

Quando a passeata atingia a quadra onde ficava a minha casa, entre as travessas Mucambinho e Good Day, a Polícia Militar, concentrada na Secretaria de Segurança Pública, começava a surgir, aos montes, saídos das duas travessas, encurralando os estudantes no meio. Aí era uma loucura total! Bombas de gás lacrimogênio, tiros para o alto,  tiros em direção aos estudantes, cacetetadas, espancamentos e toda sorte de atrocidades. Até hoje ainda sinto a emoção do horror.

As empregadas deitadas no chão com meus irmãos. Eu dava sempre um jeito de escapulir e ficar olhando tudo pelas persianas das janelas do meu quarto. E não demorou a que eu tomasse partido naquela confusão toda. Mesmo sem ter maiores esclarecimentos a respeito, visto que perguntava a minha mãe o porquê e ela só me dizia que o povo estava proibido de falar e os estudantes não queriam obedecer.

Passei a deixar o portão da escada encostado e quando vinha uma passeata, abria uma frestinha da janela e dizia: Olhe, o portão está só encostado. Se a Polícia chegar é só empurrar o portão e se esconderem nos vão das escadas.  E assim, quando a polícia começava a pancadaria, uns jovens sempre entravam, encostavam o portão e ficavam abaixadinhos nas escadas. O muro não permitia que os policiais os vissem. Por vezes, após a prisão de muitos, o espancamento de tantos outros, o socorro dado a outros, nós, lá em casa, chamávamos aqueles que estavam escondidos na escada e os socorríamos.

Um copo de água, merthiolate, esparadrapo, bandagens, até camisas emprestamos algumas vezes, para aqueles que tinham as suas rasgadas e não podiam retornar às ruas rasgados senão seriam presas fáceis. Após esses socorros eu acompanhava esses estudantes, atravessávamos a casa inteira, abríamos a porta de comunicação com a boutique de minha mãe e de lá eles saíam pela porta que os levava a travessa do Mucambinho. Eu adorava fazer isso e me sentir enganando a polícia cruel, ao mesmo tempo em que protegia aqueles jovens, muitas vezes feridos.

Passados alguns meses dessa prática, resolvi um belo dia, que como eu mesma era estudante, não seria frouxa. Iria eu mesma participar da próxima passeata. E assim foi. Estava eu na aula de acordeon quando ouvi os gritos vindos  do megafone: Vamos estudantes, avante! Larguei o acordeon e saí em disparada. Nem dei bolas para os gritos de D. Celeste, minha professora de música. Corri e me enfiei no meio dos estudantes. E segui por um tempo, sob protestos daqueles jovens que me diziam: saia daqui, corra, vá logo! E eu fingia que ia e mudava de lado. Tinha um plano. Quando a passeata chegasse na porta do edifício Marquês de Abrantes eu correria pra casa. Era guerreira mas não queria apanhar.

A emoção era imensa. O coração parecia que ia explodir no peito. Eu repetia as palavras de ordem. Via os covardes correndo na calçada. As portas sendo baixadas. E eu deslumbrada. Era corajosa. Queria a democracia (mesmo sem saber o que significava), só sabia que com a democracia poderíamos falar o que quiséssemos, poderíamos contar nossas idéias. Nesse deslumbramento todo, só vi o corre-corre. Era a polícia. Uma estudante quis me proteger e apanhou um bocado. Eu tomei umas duas cacetetadas de “fanta”. Até que um dos policiais me tirou dali e iria me levar, sabe-se Deus pra onde, quando eu disse que estava na aula e estava voltando pra casa. Ele me levou até em casa e me entregou a Júlia. Nem preciso dizer que Júlia, minha mãe criadeira, ficou apavorada.

Minha mãe teve uma longa conversa comigo, explicou os perigos todos e também que devido a minha fragilidade física poderia atrapalhar a passeata e me machucar bastante.  Nunca mais participei das passeatas. Mas continuei a proteger quem podia. E a ditadura continuou ainda por muito tempo. E 1968 jamais foi esquecido pela história. O ano que não acabou.

Hoje, mais de 50 anos depois, vejo quanto o Brasil deve a aqueles estudantes, artistas, intelectuais, professores a democracia enfim instalada no país. E, por outro lado, reflito sobre todos os ranços que o autoritarismo deixou até os nossos dias. São prefeitos, deputados, senadores, governadores, ministros, presidente, policiais, ainda hoje fazendo o que acreditam que ninguém descobrirá e o que é pior, que se for descoberto eles não serão punidos porque fazem parte da classe dominante.

Ainda hoje muitas pessoas acreditam que podem dispor dos recursos públicos, da vida dos semelhantes. Acreditam que o mundo é formado pelos que nasceram para mandar e pelos que nasceram para obedecer às ordens dos primeiros. Acreditam na superioridade dos mais espertos. Acreditam na “lei do Gerson”.

Hoje ainda existe muita injustiça social, desigualdade, miséria etc. Mas eu consigo perceber, relembrando o caminho desde 1968, muito crescimento, muitas vitórias do povo, esclarecimento só possível através da democracia. É lindo ver alguém pobre de bom caráter denunciar desmandos e não desistir até ver o resultado. São muitos anônimos que estão fazendo a história do Brasil de hoje.

Hoje os apresentadores de TV entrevistam gente do povo. Enaltecem trabalhos sociais de sucesso. As novelas mostram os retirantes, as favelas. Filmes mostram a ação corrupta da polícia e ganham prêmios. Até Presidente da República retirante nordestino e sindicalista nós tivemos.

Pena que muitos dos políticos tenham esquecido suas raízes, seus discursos, suas promessas e seus antigos valores. Pena mesmo que as pessoas se corrompam pelo poder e pelo dinheiro. Que vendam a alma ao diabo pelo luxo, riqueza e vaidade. Poderíamos estar muito mais adiante. Mas o aprendizado tem servido a muitos.

 Ainda bem que eu também vivi 68!

A autora Elza Ramos é publicitária, pedagoga e iyalorixá